O Contemplativo

El abandono en Dios

Se fossemos perguntar a um contemplativo o porquê de ele ter se distanciado das pessoas e se afastado do mundo ficaria perplexo com este questionamento. O fato é que ele não vê a sua opção pela solidão dessa forma. Ao contrário, ele sente-se unido a toda a humanidade e a toda a criação e, se relaciona com cada ser de uma maneira nova e profunda. Para ele, a contemplação, é o instrumento que lhe permite chegar a comunhão espiritual. Ele sente-se profundamente unido a todos e traz em seu coração a compaixão pelo sofrimento universal.

O problema está em um equívoco muito comum que é pensar a contemplação como algo passivo, como se fosse um ensimesmamento ou uma fuga da realidade. Alguns pensam que o contemplativo é alguém que vê o mundo como lugar do pecado e, que por isso, escolhe fugir dessas situações buscando lugares solitários e isolados. É como se diante do combate escolhesse o caminho mais fácil: fugir da luta e refugiar-se em um lugar seguro.

Outros pensam que o contemplativo é alguém que tem como pretensão chegar a pureza e, que por isso, se isola de todos para evitar a contaminação com o pecado. É muito comum encontrar, até mesmo no discurso de pessoas de fé, um certo ressentimento, acusando o contemplativo de ter renunciado um elemento fundamental da vida cristã, que é o aspecto comunitário.

Como afirmei anteriormente, todas estas questões deixariam qualquer contemplativo perplexo, ele não se reconhece nesse desenho que fizeram dele. Ele é alguém, que em primeira instancia se sente chamado, diríamos melhor, atraído por Deus. “Ouço em meu coração: procurem minha face” (Sl 27,8). Ele não foi ao deserto por sua livre iniciativa, mas para responder a um chamado que ressoou em seu coração. Ao escutar o chamado de Deus e, ao seguir a sua voz, se dispôs para receber o dom de Deus, que é o Espírito Santo, revelador da verdade e fonte da unidade.

Nesse itinerário, o contemplativo é levado a conhecer a verdade do seu próprio ser, passando por um processo de desmantelamento de si mesmo, que será causa de grande sofrimento e de angustia existencial. Esse processo purificador permitirá compreender a sua essência, que lhe é revelada na relação com o Criador. Um novo horizonte se apresenta diante de seus olhos, é a possibilidade de viver desde essa essência e da verdade que ela revela, deixando para trás a leitura fragmentada e limitada que fazia de si e de sua história pessoal.

Concomitante a essa nova visão de si, obtém uma nova visão dos outros, aos quais se sente profundamente unido. O contemplativo se dá conta que comparte a mesma existência e tende ao mesmo fim dos demais. Seus atos e opções não são isolados, mas atinge a toda a humanidade. Por isso, sente-se como representante da humanidade diante de Deus, intercede por cada um, pois reconhece no outro um semelhante. Ele não é indiferente a nenhuma atividade humana, tudo encontra eco e acolhida em seu coração. Sobretudo, acolhe como seu o pecado universal com o intuito de colaborar que Deus traçou para a salvação do gênero humano.

O contemplativo descobre uma maneira nova de comunicar-se com cada ser, sem que as palavras sejam necessárias. O silêncio não é fruto do ascetismo, nem uma manifestação de quem cortou a comunicação com o mundo e com as pessoas. O silêncio é uma maneira de comunicação profunda – própria dos verdadeiros amantes – onde o olhar e a presença substitui as palavras. Nesse nível de relação já não se detém nos aspectos superficiais ou periféricos do outro, mas procura relacionar-se com a sua essência.

A contemplação, vista dessa maneira, é fonte de renovação das relações, tanto consigo mesmo, com os outros e com Deus. Ela é necessária em nossos tempos para que emerja uma nova civilização, a Civilização do Amor. Sem a contemplação continuaremos nos relacionando e vivendo em níveis muito superficiais, de modo mesquinho e egoísta, muito aquém daquilo que Deus sonhou e projetou para cada um de nós.

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Escola de Contemplação

Desead la paz

Uma das primeiras atividades humanas é a contemplação, sem que sejamos conscientes vamos apreendendo o modo de relacionar-nos com as pessoas e com as coisas a partir de uma contemplação silenciosa. É contemplando a constante presença e afabilidade de sua mãe que o recém-nascido intui que ela lhe ama. Esta contemplação silenciosa e intuitiva permite relacionar-se de maneira nova e profunda com cada pessoa e com cada coisa criada. Essa habilidade que é conatural a constituição humana precisa ser orientada para o seu pleno desenvolvimento.

O contexto sociocultural em que vivemos não favorece para o cultivo desse olhar contemplativo, por isso, faz-se necessário escolas de contemplação. Nosso intuito é ajudar a vivenciar a dimensão cristã da contemplação na vida secular, em meio aos compromissos e atividades diários. Nossa espiritualidade se alicerça na mística carmelitana e nos ensinamentos dos seus grandes mestres Teresa de Jesus, João da Cruz e Teresinha do Menino Jesus.