Escola de Contemplação

Desead la paz

Uma das primeiras atividades humanas é a contemplação, sem que sejamos conscientes vamos apreendendo o modo de relacionar-nos com as pessoas e com as coisas a partir de uma contemplação silenciosa. É contemplando a constante presença e afabilidade de sua mãe que o recém-nascido intui que ela lhe ama. Esta contemplação silenciosa e intuitiva permite relacionar-se de maneira nova e profunda com cada pessoa e com cada coisa criada. Essa habilidade que é conatural a constituição humana precisa ser orientada para o seu pleno desenvolvimento.

O contexto sociocultural em que vivemos não favorece para o cultivo desse olhar contemplativo, por isso, faz-se necessário escolas de contemplação. Nosso intuito é ajudar a vivenciar a dimensão cristã da contemplação na vida secular, em meio aos compromissos e atividades diários. Nossa espiritualidade se alicerça na mística carmelitana e nos ensinamentos dos seus grandes mestres Teresa de Jesus, João da Cruz e Teresinha do Menino Jesus.

 

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A Liberdade em São João da Cruz

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               Para montarmos o quebra-cabeça afim de apresentar o pensamento de São João da Cruz a respeito da liberdade precisamos encaixar corretamente três peças essências: apetites (apegos), noite escura, união com Deus. Para João da Cruz o horizonte último do ser humano é essa união com Deus, que no Livro Chama Viva de Amor ganha expressões tão forte como “transformação da alma em Deus”. Importante salientar, desde o começo, que o artífice que permite e dinamiza essa união é o amor. A pessoa inicia esse processo, quando “inflamada de amor” se destina a buscar essa união, é próprio do amor buscar a união.

            Aqui emerge uma pergunta bem concreta: como posso fazer para chegar a essa divina união? Emerge aqui a extensa doutrina do Doutor Místico sobre a noite escura. A noite escura é um processo de libertação da pessoa para chegar a essa divina união. É, portanto, um processo purificador, onde se cura duas dimensões do ser humano, sua dimensão sensitiva (sentidos) e a espiritual. Assim, podemos compreender a noite como um presente de Deus, uma ação da graça de Deus, que visa libertar a pessoa da desordem de seus apetites.

            No pensamento sanjuanista os apetites são os apegos ou desejos ou adiciones. Eles são constitutivos do ser humano (desejar), porém em um estado desordenado nos impedem de ser verdadeiramente livres. O que propõem João da Cruz é a educação ao desejo, daí suas máximas: “não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável…”. Nesse sentido se torna mais compreensível a negação em São João da Cruz. O caminho do nada é um caminho pedagógico e historicamente limitado e relativo. É um caminho de educação da vontade, buscando o desapego.

          O desapego não está em ter ou não ter as coisas. O problema está no “apego”, que poderíamos traduzir como “amor de propriedade”. O apego é manifestação do nosso egoísmo que retém para si. Nesse sentido João da Cruz associa os nossos apegos aos falsos deuses, eles eclipsam o lugar do Deus verdadeiro, por isso precisam ser “hechados fuera”. A liberdade que provém desse processo é a condição necessária para alcançarmos a divina união com Deus.

 

Lições do Silêncio

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Uma pergunta simples, mas inquietante: o que aprendi com o silêncio? Não é plenamente comunicável vivências tão profundas e secretas como a que realizei permanecendo um ano em silêncio… Nem sempre encontramos palavras adequadas para se referir a vida interior. No entanto, permitam-me balbuciar algumas palavras, mesmo que às vezes pareçam enigmáticas, são a tentativa de expressar um pouco aquilo que aprendi nessa experiência eremítica

Aprendi a…

A contemplar ir além da aparência, chegando na essência de cada coisa criada e desde ali estabelecer uma relação de comunhão.

Que minhas mãos vazias não são apenas sinais de minha pobreza, mas é a condição necessária para acolher a plenitude que vem de Deus.

Quando a mente não está cerceada por uma série de informações e barulhos emerge com mais nitidez sua capacidade criativa.

O sentinela é o primeiro que contempla o novo amanhecer, nem todos vêem o que ele vê, mas nem por isso dúvida do que seus olhos contemplam. Ele é o primeiro a contemplar a luz do novo dia.

Somos mais nós mesmos à medida que não reagimos impulsivamente aos estímulos alheios. Silenciar, meditar, acolher, agir… Esse parece ser o itinerário para uma vida autêntica.

Os pensamentos nos lançam em um passado já consumado ou em um futuro ainda por vir. Nosso empenho é de estar todo inteiro no momento presente.

Nada que seja profundo e durador acontece de forma imediata. Estabelecer processos e valorizar cada fase da vida parece ser essencial.

Individualizar as pessoas e todos os seres criados. Cada ser é único, singular, irrepetível, por a nossa relação com todos os seres deve levar em consideração essa verdade.

Não escravizar o outro aos meus sentimentos. O princípio básico do amor é a liberdade, tanto quem ama como quem é amado, precisa manter a sua liberdade.

Tomar conhecimento de uma Presença que plenifica para descobrir a realidade última e transcendente da existência.

Retornar sempre ao meu centro mais profundo, mesmo em meio as diversas atividades, não dispersar a mente e o coração, mantendo-o unificado.

Santa Teresa dos Andes e o Apostolado

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“Quero que vivas sempre com Deus no fundo de tua alma… Tens de possuir a Deus para dá-lo às almas (Cta. 160)

“Aqueles que se dedicam ao apostolado “precisam ter muita vida interior para que sua obra produza fruto, pois têm de dar Deus às almas e ficarem eles com Deus, do contrário, não têm nada para dar” (Cta. 46)

“Pelo apostolado e a oração se salvam as almas… Isto necessita uma grande união com o Redentor, pois salvar almas é dar-lhes Jesus, e quem não o possuir não o pode dar (Cta. 130)

“Minha vida será a do céu. Viverei já só para Deus, em Deus e por Deus, sem mistura de criatura alguma. Minha ocupação será rezar pelo mundo, salvar as almas pela oração” (Cta 82)

“É fome, é sede insaciável a que sinto de que as almas busquem a Deus (Cta 104)

“Ocupemo-nos do próximo, em servi-lo, ainda que nos cause repugnância fazê-lo. Dessa maneira conseguiremos que o trono de nosso coração seja ocupado por seu Dono, por Deus Nosso Criador” (Diário 16)

A Mãe de Cristo nos ensina a ser filhos da Igreja

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Devemos recordar a importância que Maria Santíssima tem no mistério da redenção humana. O sim de Maria é também o nosso sim, quando diante do anjo Gabriel a Virgem Maria disse: “faça-se segundo a vossa Palavra”. Disse em nome de toda a humanidade. Por isso, Maria não é apenas Mãe de Cristo, mas Mãe de toda a humanidade redimida.

Maria pode nos ensinar porque é mestra. Ele foi a primeira discípula de seu Filho Jesus Cristo. Ela meditava todas as palavras e acontecimentos e guardava em seu coração. Maria é mestra da oração contemplativa.

Maria acalentou a Igreja nascente, estando junta com os apóstolos após a ressurreição. Por isso, há uma ligação muito estreita entre Maria e a Igreja. A Igreja prolonga hoje o sim de Maria pelo sim de cada novo batizado. Cada batizado que recebe pelas águas do batismo a vida nova da graça de Deus é devedor a Nossa Senhora que pelo seu sim abriu-nos as portas das torrentes de graças de Deus.

A Virgem Maria ensina-nos a amar a Igreja, como se ama uma mãe. Pois a Igreja também é nossa mãe. É dela que recebemos a fé que professamos. É da Igreja que recebemos os sacramentos. É ela quem nos dá a Eucaristia e o perdão de nossas faltas por meio do Sacramento da Reconciliação.

A Igreja como mãe cuida dos seus filhos com carinho materno, mas também exorta e orienta para não nos afastarmos dos caminhos de Deus. A Igreja como mãe quer ver seus filhos crescer na santidade, do amor mútuo, na partilha, na solidariedade.

Dez conselhos de Santa Teresa para a vida espiritual

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  1. Descubra a sua interioridade

 

  1. Cante as misericórdias de Deus em sua vida (V 14,10)

 

  1. Cultive um relacionamento de amizade com Cristo

 

  1. Cultive amizade com os amigos de Deus

 

  1. Cultive as virtudes (amor, desapego e a humildade)

 

  1. Leia bons livros

 

  1. Destine para Deus o seu pensamento

 

  1. Engulosine as almas de tão grande bem

 

  1. Sirva com amor e alegria

 

  1. Valorize o que é eterno e, que, portanto, permanece

 

 

Pessoas orantes

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Muito mais do que “fazer oração” Deus nos quer “pessoas orantes”. Por isso nossa oração deve ultrapassar o tempo que a ela dedicamos concretamente para contagiar toda a nossa vida.

Como seres humanos que somos, estamos limitados ao tempo e ao espaço, por isso, como comunidade cristã, precisamos estabelecer um tempo e um espaço concreto para rezarmos, porém, nossa oração deve se prolongar durante todo o nosso dia.

Quem verdadeiramente ama em tudo o que faz e em todos os lugares lembra-se da pessoa amada, dizia Santa Teresa. E Santa Teresa dos Andes dizia a respeito de sua vida: “minha vida é uma oração contínua”. Esse ideal de quem vive constantemente na presença de Deus é o ideal dos Seculares Contemplativos.

Somente o ramo que permanece unido à videira é capaz de dar frutos, assim também nós se não permanecemos unidos a Cristo não poderemos dar frutos (Jo 15,4). É insensatez nossa pensar que os frutos provenham do nosso esforço humano. É Deus quem torna fecundo o nosso ministério e o nosso trabalho. Esse é um ato de fé que precisamos cultivar em nossos corações.

Permanecer ligados a Jesus para receber a seiva que circula no seu Corpo Místico que é a Igreja. Como o apóstolo Paulo podemos dizer: “eu plantei, Apolo regou, mas quem fez crescer é Deus” (1Cor 3,6). É preciso crer no primado da graça, sem isentar-nos do nosso compromisso de acolher e corresponder a graça recebida.

 

Permanecei em mim e Eu permanecerei em vós

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Qual é o fundamento de toda a vida espiritual e cristã? O apóstolo Paulo, com uma clareza ímpar, nos ensina: “Ninguém pode colocar um fundamento diferente daquele que já foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,11). O fundamento é Jesus Cristo com sua vida, doutrina e missão. Nosso fundamento não é um conjunto de verdades que professamos, mas uma pessoa com a qual nos relacionamos.

No início do ser cristão está o encontro com Jesus Cristo, não é qualquer encontro, é um encontro decisivo, que dá um novo sentido à vida e um novo horizonte. Acontece uma verdadeira metanóia, transformação ontológica, pois envolve todo o ser.

Não há como progredirmos na vida espiritual sem compreendermos que a espiritualidade é uma relação entre duas pessoas: Deus e nós. Deus não é um conceito que eu apreendo com meu estudo e com meu intelecto, Deus é um Tu com o qual me relaciono. Como todo e qualquer relacionamento também o relacionamento com Deus tem suas exigências. Uma delas é a exigência da presença.

Nesse caso, a presença é estar com Aquele que meu coração ama, com Aquele no qual meu coração e minha carne se alegram, no Deus vivo (Sl 84,3).

A oração é esse encontro entre dois seres que se amam e que se desejam. Pois como diz São João da Cruz: “Se é verdade que o homem procura a Deus é bem mais verdade que Deus procura o homem”. Não sou eu que apenas desejo estar com Deus, mas Deus que também deseja estar comigo. Por isso, Santo Agostinho define a oração como “o encontro entre a sede de Deus e a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede dele”.

Para Teresa de Jesus a oração é uma questão de amor, por isso sugere: “a oração não consiste em pensar muito, mas em amar muito”. Por isso, “tudo que ajuda a amar, isso fazei”.

O evangelista João utiliza um verbo muito singular para explicar que tipo de presença é essa. O verbo empregado por João é “permanecer”. Jesus diz: “permanecei em mim, como eu em vós” (Jo15,4).

Estar inteiramente unido a Ele, como Ele está inteiramente unido a nós. São duas realidades que precisamos tomar consciência: nós estamos em Deus e Deus está em nós.

Duas imagens nos ajudam a adentrar nesse mistério: o castelo interior, que lembra a dimensão que somos habitados por Deus e o oceano de amor, que me recorda que sou uma pequena gota d´agua emersa no oceano da misericórdia de Deus.

Assim, o Secular Contemplativa, ao mesmo tempo que adentra ao castelo interior, descobre-se imerso no amor de Deus.

O Cotidiano de Maria de Nazaré

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O livro “O Cotidiano de Maria de Nazaré” pertence ao gênero das obras literárias que deveriam ser lidas de “joelho no chão”, pois conduzi-nos a meditar e a representar em nossa imaginação como seria a vida de uma jovem judia, em um pequeno povoado da Galiléia, nos primeiros séculos da era cristã. Espantamos-nos quando tomamos consciência de que Maria levou uma vida igual à de nossas mães, preocupada com a lida da casa e com o bem estar dos membros de sua família. De fato, a Mãe de Jesus viveu como vive a maioria do povo. Ela partilhou as humildes condições de vida de milhões e milhões de dona-de-casa.

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Cartar as misericórdias do Senhor

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Nesse domingo da Festa da Misericórdia oferecemos ao nosso leitor algumas citações de Santa Teresa de Jesus a respeito desse tema extraído do Livro da Vida

“Isto manifesta ainda mais quem sois Vós, Esposo meu, e quem sou eu. Pois é verdade que muitas vezes o sentimento de minhas grandes culpas é temperado pelo contentamento que me dá a compreensão da multiplicidade das Vossas Misericórdias” (V 4,3).

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  Aleluia! Jesus Cristo ressuscitou! Aleluia!

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Estimados irmãos e irmãs contemplativos

Aleluia! Jesus Cristo ressuscitou! Aleluia!

                       Ao aproximar-nos do Mistério Pascal sentimo-nos como diante de uma imensa fonte com água abundante e cristalina. Não nos é possível beber toda essa água, a fonte é maior e o recipiente que trazermos é muito limitado. O que podemos absorver desse mistério é muito limitado, mas o suficiente para sentir-nos “transbordar” de alegria e de paz. Se permanecermos constantemente diante dessa fonte, poderemos saciar-nos a cada momento, por isso, como peregrinos que alcançaram a sua meta, detenhamo-nos nesse Mistério, não tenhamos receio de aqui fincar nossas tendas, pois é nessa fonte que toda a criação é redimida e renovada.

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