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Segundas Moradas, capítulo único

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Meu Encarceramento

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Ainda lembro como se fosse hoje como tudo aconteceu. Era uma sexta-feira, já no finalzinho da tarde, quando já ansiava pelo fim de semana que se avizinhava. Eles entraram no meu local de trabalho, não bateram na porta, nem cumpriram os rituais de boa educação. Simplesmente, deram-me voz de prisão, sem que eu pudesse resistir. Não estavam munidos de cassetete, algemas ou arma de fogo. Não eram como os policiais normais: suas armas eram palavras, imagens, fatos e um alarmante índice de mortos. Minha sensação naquele momento foi de um cidadão comum. Senti-me perplexo, perdido e acuado. Sem que minhas angustias fossem escutadas, fui levado às pressas para o camburão. Não me foi permitido levar muitas coisas. Eles me levaram em um veículo escuro e hostil a minha dor. No entanto, percebi que não era o único que havia sido preso, milhares de pessoas também estavam ali, também elas haviam sido delatadas. A acusação que recaia sobre todos nós era que levávamos uma vida comum. Algo totalmente injusto para um trabalhador como eu, que paga os meus impostos e cumpre com os seus deveres com a Nação. Mas o mais chocante de tudo ainda estava para acontecer. O local do meu encarceramento se chamava casa. Casa? Sim, não qualquer casa, mas a minha casa. Era realmente maldade o que faziam comigo, estar preso em minha própria casa. Casa, para mim, colocava-me em contato com um “nós”. Confesso que sempre tive dificuldade em conjugar os verbos na terceira pessoa do plural, por isso, com o passar do tempo havia criado muitos espaços onde a conjugação na primeira pessoa do singular era permitida. Era ridículo que nessa altura da vida fosse obrigado a passar por essa situação tão constrangedora. Os meus algozes, como um gesto benéfico, deixaram-me usar o smartphone. Era um refrigério em meio ao caos! Mas o tempo da privação foi alongando-se e com ele foram aflorando os meus medos e preocupações. Como vou pagar as minhas dívidas? Como vou sustentar a minha família? Essas e outras perguntas eram frequentes… Mas as minhas dúvidas não eram ouvidas, tentei fazê-los entender a importância que eu tinha na empresa e que muitas coisas dependiam de mim. Eu, que me achava imprescindível no meu trabalho, agora estava privado de qualquer certeza ou garantia de um dia voltar para ele. Esses pensamentos e preocupações, somadas ao enfado de estar naquele lugar, que já não merecia o nome de casa, mas de cárcere, levou-me ao delírio… Como é difícil constatar que não temos as coisas em nossas mãos e que de uma hora para outra tudo se torna relativo! O delírio, que de início se manifestava como um intruso, já ocupava cada segundo do meu dia. Hoje, tendo passado alguns anos do meu encarceramento posso admitir que o cume de tudo foi aquele espelho. De fato ele sempre esteve lá, mas até então servia apenas para ajudar-me a fazer a barba. Aquele espelho colocou-me em contato com o meu “eu”. O “eu verdadeiro” que vive escondido dentro de cada um de nós. Temos vergonha dele, por isso, fazemos questão de negá-lo. Mas já não me era mais possível fugir, minha condição de encarcerado não me permitia. Até mesmo o smartphone, de início tão solidário a minha dor, havia se revelado como um verdadeiro inimigo que me roubava de mim mesmo e, consequentemente, dos outros. Que cena deprimente foi escutar a voz do meu “eu verdadeiro”. Tive que reconhecer que havia muitas coisas em mim sem resolver.  É como se me deparasse com um aglomerado de entulhos sem saber o que fazer. Não consigo colocar no papel o que consiste encontrar-se consigo mesmo em meio ao caos. Medo, insegurança, frustração, dúvidas, ódio, desespero… São palavras apenas! O que está em mim é bem mais do que isso. Porém, foi exatamente nesse instante, entre o desespero e a lucidez que vi emergir em mim uma voz. Não seria ela projeção do meu desespero? Não seria um refúgio metal criado pela minha fraqueza? Não, não conseguiria produzir por mim mesmo aquela sensação de paz. Não vinha de mim, mas de um “outro” estranhamente presente em mim. Agora reconheço que ela não surgiu no desespero, ela sempre esteve ali. Aquela voz amena e cálida me indicava apenas duas atitudes infantis como âncora naquela tempestade: a confiança e o abandono. Confiança e abandono não são palavras mágicas. Estão repletas de significado existencial. Foi quando no auge de meu encarceramento, quando havia perdido todas as esperanças de sobreviver a esse caos, é que emergiu essa Presença afável e sutil. Não sei explicar como alguém passa da dor à alegria, da prisão à liberdade, do desespero à esperança… São coisas complexas que não conseguimos expressar com palavras. Mas foi assim, quando do cume do meu cárcere fui liberto de mim mesmo e me abri à Transcendência.

 

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Escola de Contemplação

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Uma das primeiras atividades humanas é a contemplação, sem que sejamos conscientes vamos apreendendo o modo de relacionar-nos com as pessoas e com as coisas a partir de uma contemplação silenciosa. É contemplando a constante presença e afabilidade de sua mãe que o recém-nascido intui que ela lhe ama. Esta contemplação silenciosa e intuitiva permite relacionar-se de maneira nova e profunda com cada pessoa e com cada coisa criada. Essa habilidade que é conatural a constituição humana precisa ser orientada para o seu pleno desenvolvimento.

O contexto sociocultural em que vivemos não favorece para o cultivo desse olhar contemplativo, por isso, faz-se necessário escolas de contemplação. Nosso intuito é ajudar a vivenciar a dimensão cristã da contemplação na vida secular, em meio aos compromissos e atividades diários. Nossa espiritualidade se alicerça na mística carmelitana e nos ensinamentos dos seus grandes mestres Teresa de Jesus, João da Cruz e Teresinha do Menino Jesus.

 

Primeiras Moradas, capítulo 1

Introdução ao Livro Castelo Interior ou Moradas

Fique em casa lendo Santa Teresa

Fique em casa

SEJA UM MODERADOR DO NOSSO PROJETO!

Olá meu irmão, minha irmã! Vamos colaborar com as autoridades sanitárias que estão pendido para todos nós “FIQUE EM CASA”. Essa é uma atitude de prudência, de respeito pelo dom maior que Deus nos deu que é a vida. Então, seja responsável pela sua vida e de sua família e colabore.
Nós do Carmelo Descalço estamos lançando uma iniciativa chamada “FIQUE EM CASA LENDO SANTA TERESA”. Assim, esse tempo de reclusão se tornará um tempo muito fecundo para o nosso crescimento humano e espiritual. Vamos começar lendo o livro “Castelo Interior”, essa obra prima da literatura cristã.
Seja você um MODERADOR e nos ajude nesse projeto, basta enviar uma mensagem para o número (43) 99869-9928 (Whatsapp), e descubra como poderá nos ajudar nessa iniciativa.

A Liberdade em São João da Cruz

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               Para montarmos o quebra-cabeça afim de apresentar o pensamento de São João da Cruz a respeito da liberdade precisamos encaixar corretamente três peças essências: apetites (apegos), noite escura, união com Deus. Para João da Cruz o horizonte último do ser humano é essa união com Deus, que no Livro Chama Viva de Amor ganha expressões tão forte como “transformação da alma em Deus”. Importante salientar, desde o começo, que o artífice que permite e dinamiza essa união é o amor. A pessoa inicia esse processo, quando “inflamada de amor” se destina a buscar essa união, é próprio do amor buscar a união.

            Aqui emerge uma pergunta bem concreta: como posso fazer para chegar a essa divina união? Emerge aqui a extensa doutrina do Doutor Místico sobre a noite escura. A noite escura é um processo de libertação da pessoa para chegar a essa divina união. É, portanto, um processo purificador, onde se cura duas dimensões do ser humano, sua dimensão sensitiva (sentidos) e a espiritual. Assim, podemos compreender a noite como um presente de Deus, uma ação da graça de Deus, que visa libertar a pessoa da desordem de seus apetites.

            No pensamento sanjuanista os apetites são os apegos ou desejos ou adiciones. Eles são constitutivos do ser humano (desejar), porém em um estado desordenado nos impedem de ser verdadeiramente livres. O que propõem João da Cruz é a educação ao desejo, daí suas máximas: “não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável…”. Nesse sentido se torna mais compreensível a negação em São João da Cruz. O caminho do nada é um caminho pedagógico e historicamente limitado e relativo. É um caminho de educação da vontade, buscando o desapego.

          O desapego não está em ter ou não ter as coisas. O problema está no “apego”, que poderíamos traduzir como “amor de propriedade”. O apego é manifestação do nosso egoísmo que retém para si. Nesse sentido João da Cruz associa os nossos apegos aos falsos deuses, eles eclipsam o lugar do Deus verdadeiro, por isso precisam ser “hechados fuera”. A liberdade que provém desse processo é a condição necessária para alcançarmos a divina união com Deus.

 

Lições do Silêncio

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Uma pergunta simples, mas inquietante: o que aprendi com o silêncio? Não é plenamente comunicável vivências tão profundas e secretas como a que realizei permanecendo um ano em silêncio… Nem sempre encontramos palavras adequadas para se referir a vida interior. No entanto, permitam-me balbuciar algumas palavras, mesmo que às vezes pareçam enigmáticas, são a tentativa de expressar um pouco aquilo que aprendi nessa experiência eremítica

Aprendi a…

A contemplar ir além da aparência, chegando na essência de cada coisa criada e desde ali estabelecer uma relação de comunhão.

Que minhas mãos vazias não são apenas sinais de minha pobreza, mas é a condição necessária para acolher a plenitude que vem de Deus.

Quando a mente não está cerceada por uma série de informações e barulhos emerge com mais nitidez sua capacidade criativa.

O sentinela é o primeiro que contempla o novo amanhecer, nem todos vêem o que ele vê, mas nem por isso dúvida do que seus olhos contemplam. Ele é o primeiro a contemplar a luz do novo dia.

Somos mais nós mesmos à medida que não reagimos impulsivamente aos estímulos alheios. Silenciar, meditar, acolher, agir… Esse parece ser o itinerário para uma vida autêntica.

Os pensamentos nos lançam em um passado já consumado ou em um futuro ainda por vir. Nosso empenho é de estar todo inteiro no momento presente.

Nada que seja profundo e durador acontece de forma imediata. Estabelecer processos e valorizar cada fase da vida parece ser essencial.

Individualizar as pessoas e todos os seres criados. Cada ser é único, singular, irrepetível, por a nossa relação com todos os seres deve levar em consideração essa verdade.

Não escravizar o outro aos meus sentimentos. O princípio básico do amor é a liberdade, tanto quem ama como quem é amado, precisa manter a sua liberdade.

Tomar conhecimento de uma Presença que plenifica para descobrir a realidade última e transcendente da existência.

Retornar sempre ao meu centro mais profundo, mesmo em meio as diversas atividades, não dispersar a mente e o coração, mantendo-o unificado.

Santa Teresa dos Andes e o Apostolado

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“Quero que vivas sempre com Deus no fundo de tua alma… Tens de possuir a Deus para dá-lo às almas (Cta. 160)

“Aqueles que se dedicam ao apostolado “precisam ter muita vida interior para que sua obra produza fruto, pois têm de dar Deus às almas e ficarem eles com Deus, do contrário, não têm nada para dar” (Cta. 46)

“Pelo apostolado e a oração se salvam as almas… Isto necessita uma grande união com o Redentor, pois salvar almas é dar-lhes Jesus, e quem não o possuir não o pode dar (Cta. 130)

“Minha vida será a do céu. Viverei já só para Deus, em Deus e por Deus, sem mistura de criatura alguma. Minha ocupação será rezar pelo mundo, salvar as almas pela oração” (Cta 82)

“É fome, é sede insaciável a que sinto de que as almas busquem a Deus (Cta 104)

“Ocupemo-nos do próximo, em servi-lo, ainda que nos cause repugnância fazê-lo. Dessa maneira conseguiremos que o trono de nosso coração seja ocupado por seu Dono, por Deus Nosso Criador” (Diário 16)

A Mãe de Cristo nos ensina a ser filhos da Igreja

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Devemos recordar a importância que Maria Santíssima tem no mistério da redenção humana. O sim de Maria é também o nosso sim, quando diante do anjo Gabriel a Virgem Maria disse: “faça-se segundo a vossa Palavra”. Disse em nome de toda a humanidade. Por isso, Maria não é apenas Mãe de Cristo, mas Mãe de toda a humanidade redimida.

Maria pode nos ensinar porque é mestra. Ele foi a primeira discípula de seu Filho Jesus Cristo. Ela meditava todas as palavras e acontecimentos e guardava em seu coração. Maria é mestra da oração contemplativa.

Maria acalentou a Igreja nascente, estando junta com os apóstolos após a ressurreição. Por isso, há uma ligação muito estreita entre Maria e a Igreja. A Igreja prolonga hoje o sim de Maria pelo sim de cada novo batizado. Cada batizado que recebe pelas águas do batismo a vida nova da graça de Deus é devedor a Nossa Senhora que pelo seu sim abriu-nos as portas das torrentes de graças de Deus.

A Virgem Maria ensina-nos a amar a Igreja, como se ama uma mãe. Pois a Igreja também é nossa mãe. É dela que recebemos a fé que professamos. É da Igreja que recebemos os sacramentos. É ela quem nos dá a Eucaristia e o perdão de nossas faltas por meio do Sacramento da Reconciliação.

A Igreja como mãe cuida dos seus filhos com carinho materno, mas também exorta e orienta para não nos afastarmos dos caminhos de Deus. A Igreja como mãe quer ver seus filhos crescer na santidade, do amor mútuo, na partilha, na solidariedade.

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